Mãe e filho de mãos dadas trilhando os caminhos do autismo/asperger.
Numa partilha intimista e de coração aberto em sonhos e desalentos, numa vida vivida...
Ter um filho asperger não é o fim do mundo, mas o princípio de uma nova vida...
Valorizando os afectos...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Pensamentos Negativos


Todos os dias surgem-me pensamentos negativos, que me põe nervoso, enervado, irritado, chateado.(frase de Bruno V.)

A mãe explica o que se passou porque, por esta introdução, acho que ninguém lá chega...
O Bruno não consegue ligar o pensamento positivo, até a jogar copas no PC, ás vezes, é negativo, principalmente se apanha 25. Pode até acontecer só uma vez ou duas, mas ele vai referir que apanha sempre 25... Note-se "o sempre".
Estava o meu rapaz muito entretido a passar as grelhas do" Sudoku" para um programa de excel que o pai lhe tinha pedido. O trabalho correu bem, encerrou o computador e quando reiniciou, havia uma pequena alteração na folha e ele não encontrava a barra em baixo que lhe daria acesso a mais páginas, só aparecia algo a dizer pronto.
Começam os pensamentos negativos a agitá-lo: "não vou conseguir, não vai dar, aposto milhões em como não vai dar".
- Espera só um bocadinho que a mãe já vai aí ver...
- Mas tu ainda percebes menos disto que eu - respondeu ele.
E é bem verdade, mas a tentativa é para o acalmar e ajudar a racicionar.
- Eu sei que não percebo nada, filho, mas tu podes fazer outras tentativas, tu percebes.
-Ah! lembrei-me! - Exclamou ele ao lembrar-se da tecla.
Carrega na tecla F1, pede ajuda para o pretendido e lê aquilo na transversal.
Acho que tinha de lá estar " escarrapachada" a resposta exacta que ele queria obter.
Não encontra a solução, o estado de ansiedade e agitação aumenta e continuam as apostas, do "não consigo, não vai dar".
Até que a mãe diz - Se não dá, desliga e volta a ligar, pode ser que apareça a tal barra de páginas que tu queres.
Estamos para encerrar e lá se lembra de maximizar a folha onde está a tão almejada barra.
- UFA!... estava a ver que não conseguia. - Exclama ele mais uma vez.
- Mãe, as apostas era a brincar. Afinal era tão facíl!
Mas a adrenalina dele já estava no limite. Para descomprimir até se enfiou debaixo da cama.
Só passados uns minutos diz:
- Pronto, já estou mais calmo!...

Eu penso que não consigo fazer as coisas, no entanto, elas são mais fáceis do que aquilo que parecem...(conclusão de Bruno V.)

8 comentários:

Mrs_Noris disse...

Ainda bem que o Bruno concluiu que os pensamentos negativos só complicam a nossa vida e capacidade de reacção. É muito importante perceber isso. Agora só tem de tentar diminuir a ansiedade associada a esses pensamentos. A ansiedade realmente não serve para nada, só nos leva ao cansaço e ao mau humor. O Bruno pode conseguir um auto-controlo se, por exemplo, fechar os olhos e inspirar e expirar fundo, durante o tempo que for necessário, até sentir-se mais calmo.
Um beijinho e pensamento positivo.

Mina disse...

Noris

O Bruno é daqueles que na teoria até sabe, só que quando chega a pratica o pensamento negativo é mais forte, e ele repete os mesmos comportamentos e atitudes invariavelmente, e não há conversa nem exemplos que o façam demover...
bjocas

Mina disse...

Este era o texto inicial que o Bruno tinha composto:

Todos os dias surgem-me pensamentos negativos, que me poem nervoso, enervado, irritado,chateado.
Eu gosto de enfiar coisas no meu nariz porque penso que assim a constipação me vai passar, e isto é um pensamento positivo.
O pensamento negativo que não me sai da minha cabeça, é que a constipação nunca se vai embora.
Eu penso que não consigo fazer as coisas no entanto elas são muito mais fáceis do que aquilo que parecem.

No proximo comentário tentarei analisar esta correlação.

Mina disse...

Continuam a ser para mim confusas as correlações que o Bruno faz de assuntos que aparentemente não tem nada a ver.
A primeira frase todos entende-mos que tem a ver com o estado de ansiedade, que juntou todos estes sinonimos para a defenir.
Ora se estava fazer um trabalho no Pc e a situação que o deixou transtornado foi o não encontrar a barra no fundo da página.
Porquê que o nariz foi para aqui chamado(lol),a ligação que faço é o facto de o nariz entupido ser um factor de stress, e tudo junto resultar em que se fixe num estado, e não consiga partir para o seguiente, a concentração, ficou no facto de nariz estar obstruído, não o deixar raciocionar.
Ando sempre a tentar entender estas ligações.
Felizmente terminou bem a situação, até porque estava em ambiente protegido.
O que não deixa de me preocupar, quando está fora do nossso espaço...

mariamartin disse...

Querida Mina,
Este tipo de comportamento ansioso do Bruno é igualzinho ao meu filho, só que o meu não é tão stressado, é mais calmo, e por isso não tem "ataques de pânico".O que ele mais gosta de dizer é "Mas eu não consigo!" mesmo antes de tentar.E depois de tentar e não conseguir é um sarilho para que entenda a nossa explicação. Quando por fim consegue, não fica nada entusiasmado...É estranhíssimo...
Quanto às "associações" de ideias ou conversas, que afinal o não são, às vezes deixam-nos estupefactos e é difícil não reagirmos com um "Mas o que isso tem a ver com a conversa???".A última foi à saída de uma loja onde fui trocar o casaco que havia comprado de prenda de Natal à minha sogra.Como é óbvio, a senhora foi buscar outra cor, retirou o alarme e pôs o outro casaco dentro de um saco.Ele pergunta:"Para que são os alarmes à porta da loja?".Eu respondi:"Para que as pessoas não saiam com coisas que não pagaram".Ele diz:"Mas tu também não pagaste!!".
Bom, lá viemos caminhando lado a lado e eu explicando que tinha sido uma "troca", etc., etc.De repente, interrompendo a minha explicação, ele pergunta: "O que é oftalmologia?"
(...)Tínhamos passado por um consultório e ele leu a palavra...
Para quem tem um aspie, esta cena é comum e frequente.
Quem não tem, provavelmente não entenderia!
Acho que o Bruno aqui neste texto até terá feito uma boa associação: as duas situações causam-lhe medo!
Beijinhos e abraços!
mariamartin

Mina disse...

Maria Martin

Parece-me que temos papel químico.
Ainda nem sequer tentaram , já tem o negativo a funcionar que "não vão conseguir","que é dificíl", "que é impossível", enfim e mais que apelem a negação.
O meu tbm stressa mais agora que é mais velho, ou porque tem cada vez mais noção das limitações, ou porque eu (e os outros) lhe exigimos mais.Estou sempre a falar-lhe da lei da a atracção, mas o máximo que já consegui ,foi chegar ao intermédio.(que rapidamente regressa ao negativo)
As relações absurdas que faz tem a ver que na perspectiva dele são situações, sem solução.
Bjocas

Mel disse...

Olá a todos(as!)
É curioso como ao ao ler os vossos registos, eles se encaixam tão bem no meu filho de 5 anos. Agora que ele já verbaliza com alguma fluência (embora ainda com um tipo de linguagem abaixo da faixa etária), quando colocado perante algo novo, ou que lhe está a provocar algum tipo de dificuldade, diz logo " eu não consigo!". Depois, é ainda a baixa tolerância à frustração. Por exemplo, detesta perder e por isso reage de forma desajustada, como se fosse a coisa mais importante do mundo. Mas, faz batota para tentar ganhar sempre!
Quando está mais tenso, vai esconder-se por baixo da cama.
Agora anda na fase dos porquês, quer saber tudo e é o porquê até à exaustão. Mas acho isso positivo e respondo-lhe sempre.
Por um lado, acho-o muito mais interessado em tudo o que o rodeia, acho que cada dia tem uma vivência o mais perto possivel da dos demais da sua idade. No entanto, nas situações de crise, as estereotipias e as reacções exageradas fazem questão de nos lembrar que a PEA ali está!
Um abraço a todos.
Maria Anjos

Mina disse...

Olá, Maria dos Anjos

Não está em casa estranha amiga, seja bem vinda!...
O Bruno sempre teve esta postura negativa, acho que daí também resulta a baixa auto-estima que eles tem ,e de facto tambem tem baixa tolerância á frustração , que está tudo interligado.
Curioso que o Bruno detesta perder com ele próprio, se for com os outros nem liga tanto, alías tambem pouco participa, e normalmente até ganha. E é incapaz de fazer batota delibravada, e nem permite que os outros façam ou ele denuncia, isso acho que faz parte da inflexibilidade, que tudo tem de ter as regras muito bem defenidas.
Quanto aos porquês amiga, todos por lá passam, acho que os nossos de uma forma mais insistente, o que muitas vezes cansa, mas é bom que questionem é sinal de curiosidade, o problema é quando já estão "marrecos" de saber as respostas e parecem que nos querem testar,persistindo na pergunta.
Bjocas