Mãe e filho de mãos dadas trilhando os caminhos do autismo/asperger.
Numa partilha intimista e de coração aberto em sonhos e desalentos, numa vida vivida...
Ter um filho asperger não é o fim do mundo, mas o princípio de uma nova vida...
Valorizando os afectos...

quarta-feira, 31 de março de 2010

"A cena do chocolate"

Desfiando memórias antigas, que marcam as nossas vidas...

Numa aldeia da Beira interior, terra de onde os meus pais são oriundos, onde a desertificação se tem instalado desde o final dos anos sessenta, fruto de um enorme fluxo migratório para terras de França, só ficaram os velhotes que aos poucos também tem partido para terra firme.
Mas nessa aldeia tão pacata e deserta existe uma pequena «venda*», onde as pessoas da aldeia vão fazer as suas compras.
Numa tarde de Outono resolvemos ir para a calmaria dessa zona tranquila. Resolvemos ir á venda a um mini talho que possuía carnes próprias, comprar carne fresquinha para o jantar, mas não estávamos sozinhos, no mesmo espaço estava um senhor de raça negra, o que é raríssimo nestas paragens.
O Bruno não parava de o observar sem , no entanto olhar directamente para ele, e ia-me chamando a atenção para o dito senhor.
Dizia-me "o senhor é preto" eu fingia que não ouvia, continuava a falar com o senhor do talho pensando que o interesse do Bruno se dissiparia, mas não, ele insistia "o senhor é preto" enquanto o senhor preto ia murmurando entre dentes um pouco indignado, "pois sou de raça diferente", como se nós acalentássemos alguma forma de racismo.
Mas o Bruno continuava " o senhor é preto"; e eu continuava a fingir que não percebia, até que ele olha na direcção do senhor preto, e lhe diz na sua vozinha meiga de uma criança, que ainda não tinha quatro anos "pareces mesmo um chocolate". Fiquei num misto de vergonha, mas ao mesmo tempo com uma enorme vontade de rir, mas tive que me conter, pois o senhor preto não estava a achar graça nenhuma à brincadeira.
Depois de sairmos do local não me consegui conter e ri a bandeiras despregadas, de tão engraçada que tinha sido a situação, pois nunca tinha ouvido chamar a um senhor preto um nome tão doce como o chocolate...

*«venda»- local de venda que normalmente inclui: merceeria e taberna

6 comentários:

maria cristina disse...

Olá, Mina

Parabéns pelo blog, muitas mães se beneficiam ao ler sua experiência!

Li uma matéria agora e acredito que valha a pena divulgá-la http://bit.ly/bMkYx9

Um grande abraço!

Cris Santos

AVOGI disse...

olha Mina
a sobrinha do mê senhor uma certa vez ao ver um familiar oriundo de angola mas não negro simplesmente mulato perguntou-lhe.
- olha por que é que és castanho?
a mãe não sabia onde se colocar e o resto da família tb mas o familiar disse :"porque apanho muito sol. E morreu por ali.

Mrs_Noris disse...

Então o senhor não percebeu que o Bruno o que fez foi um elogio? :)

Com que então um chocolatinho (lol), foi querido. Veio-me à ideia aquele anúncio do Axe.

http://www.youtube.com/watch?v=2bP5rqG2CFc

Mina disse...

Cris Santos
Obrigada, pela sua visita, e se servir para acompanhar algumas mães ou outros familiares que percorrem esta estrada, o meu objectivo fica cumprido...
Obrigada pela link, já fui visitar, é muito interessante que alguém na politica se interesse por estes casos...
bjocas e volte sempre

Mina disse...

Avogi
Naquela altura ele era criança e o senhor preto não se sentiu lisongeado, mas ainda hoje em dia poderia ter o mesmo tipo de abordagem, por não medir as regras sociais... e quando é em familía a coisa resolvesse nós também temos um familiar mesmo escuro, lool e nós brincamos com isso e ele é o marido da minha cunhada alinha na brincadeira rsss
Mas algumas pessoas, só vêm o lado racista, que não era caso...
bjocas

Mina disse...

Noris
Pois está claro que era um elogio, nessas alturas até a mim sabia bem chamarem-me chocolate kkkk
Até é um piropo lool
Gostoso aquele anúncio ihihih, mas estou a dieta kkk e o Bruno também
Hoje foi-se pesar, e disse: Esta barriga parece que está mais gorda :)))
Bjocas